26 março 2012

o vislumbre


dom caio cavalgava há horas, de boca sequiosa e esqueleto amarrotado, quando, da poeira soerguida, lhe saiu ao caminho dona morte – a mulher de todas a mais temida. dom caio, que nunca fora homem para se ficar, de pronto desembainhou a espada e, num rápido movimento que não vem nos livros de física, logo ali a trespassou, vezes sem conta. dona morte aguentou as febris estocadas, sem arredar pé. quando dom caio, alagado em seu próprio suor, se preparava para escolher entre o hara kiri ou a espera, dona morte virou costas e desapareceu, desvanecendo-se da mesma exacta forma como, poucos segundos antes, havia surgido – do nada, isso mesmo, do nada. dom caio recuperou o garbo e sacudiu o pó. cofiando o bigode que atravessara já várias guerras, sempre impecável e inatingível, sentiu-se pela primeira vez vulnerável. já não a galope, mas a passo, retomou o curso que interrompera, dirigindo-se a casa. aí chegado, pousou a espada no mesmo exacto sítio onde ainda hoje permanece. passaram quinhentos anos, dom caio desapareceu dos trilhos terrestres. quando perguntam a dona morte por episódios memoráveis da sua vida de permanente ceifa, dona morte lembra-se, sem o confessar, de dom caio e do seu bigode imponente, da sua coragem e fibra. dona morte teve, sob o mesmo sol inclemente que um dia, lá longe, dourou a pele de dom caio, um vislumbre do que é o melhor da humanidade. e, ontem como hoje, sempre que recorda dom caio, sob o calor ensandecedor da meseta ibérica, nos idos de há séculos, é sempre em lágrimas que regressa ao trabalho. ninguém regressa igual de um vislumbre tal. nem mesmo dona morte, a impiedosa. dona morte encolhe os ombros e segue viagem, sabendo que, de uma forma mais amena, mas não menos certeira, o seu trabalho foi feito. chegará o dia em que dona morte, velha e cansada, morrerá também ela. dom caio, que não tem vocação nem morada, não daria grande substituto. ficamos todos em suspenso, portanto, perguntando a nós próprios – matada dona morte, morreremos de quê? dom caio sabe a resposta, mas nunca a dirá. a cada um o seu próprio vislumbre. ou deslumbre.

2 Comments:

Blogger JB said...

Pois muito bem. Cada um é dom caio à sua maneira, porque a dona morte surge com farpelas diferentes. De todas as roupagens que veste, só a dona morte definitiva não é controlável. Todas as outras sim. Resta-nos, perante uma forma cadavérica de foice na mão (ou é uma gadanha?) , pensar: e o que faria dom caio agora? O segredo da vida? Talvez o levantar uma vez a mais do que a queda. No fundo, dom caio seis, mas dom levanto sete...

terça-feira, março 27, 2012 12:30:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Gi desde já peço desculpa por um comentário tão desajustado a este seu espaço onde tudo é bom gosto e equilíbrio (ainda que com um tom irreverente, felizmente).
JB dom caio não cairá sete vezes. Diz o povo que na 1ª todos caiem, na 2ª só cai quem quer. Eu concordo.
O Animoto anda demasiado avaro, agora só nos dá 10 segundos, quase não dá para nada: http://animoto.com/play/a1a1P6UD1wqNB7gCUI0m4g (spoiler - like the guy pictured, I would not be in any circumstances of any finest yacht in this world, even if God Himself came down to this earth of ours telling me otherwise)
MTL

sexta-feira, março 30, 2012 11:26:00 da tarde  

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