11 junho 2011



1. não sei quanto tempo mais conseguirei escrever aqui, neste jardim de inverno, fiel companheiro de tantas horas, tantos dias, tantas semanas, tantos meses, tantos anos, uns quantos amores, tantas flores.

2. hoje, encontrei um coração caído no chão, ao pé do jardim da estrela. estava ainda morno e palpitava, num último estertor. por cada coração que cai, há um mundo inteiro que se despedaça, um universo que é apagado do devir cósmico. queria dizer-vos isto, apesar de não gostar nada de vos dizer isto.

3. escrever a coração aberto é um exercício radical e nem sempre se sobrevive a exercícios radicais. talvez noutro mundo, neste não me parece. mas este é tudo o que temos e portanto temos que aprender de vez a jogar segundo as suas regras. as coisas ou se fazem ou não se fazem - os enunciados nem sempre podem ser dominados, mas as respostas aos enunciados podem.

4. quanto a ti, que provavelmente nem existes, como uma vez escrevi, por resultares de um absurdo excesso de real, ficas a saber que continuarei na minha demanda, esta aventura, talvez insana, talvez linda, talvez as duas coisas. quando chegar ao final, continuarei. quando chegar ao final do final, continuarei. quando chegares, será princípio, outra vez. desistir nunca será opção.

5. nem todos temos uma vida perfeita, aquela que desejaríamos. se a mereceríamos ou não, seria uma longa e diferente história. optamos, portanto, por acreditar que ela é possível e que a merecemos, apesar de todos os nossos muitos disparates, erros, pecados, apesar de toda a glacial probabilística. e optamos por acreditar da única maneira que sabemos: verticalmente, com tudo o que somos.

6. há na resistência uma ética radical. noutras coisas também. aqui há uns tempos, e parafraseando um escritor bastante conhecido (faulkner, creio eu), entre o nada e a dor, sei que escolhi a dor. é tempo, agora, de escolher a vida, colher a flor, encontrar os teus lábios, dizer Amor.

7. porque, afinal:

cada vez que sorris

um condenado à morte
escapa
por entre muros de betão

e a matemática
amanhece
em exacta convulsão

e a luz
desmaterializa-se
até à mais pura exaustão

a felicidade inteira
ou outra forma de dizer
o verão.



5 Comments:

Blogger JB said...

Por cada coração partido que encontramos vislumbramos outro que teima em viver, colar os pedaços dispersos para se reinventar. A nossa demanda é essa: agarrar nos destroços que somos, aqui e ali, e ousar a criatividade. Para sermos melhores, talvez. Para sobrevivermos, apenas.

domingo, junho 12, 2011 11:48:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

((encontrar os teus lábios e ousar dizer-te baixinho: A m o r. ))

segunda-feira, junho 13, 2011 12:04:00 da manhã  
Blogger Dona ervilha said...

um dos lugares virtuais que eu mais gosto. poxa.

segunda-feira, junho 13, 2011 3:49:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

escreva o tempo que conseguir, pois o que descreve é lindo

terça-feira, junho 14, 2011 9:54:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

((porque:

cada vez que sorris

a felicidade inteira
ou outra forma de dizer
o verão ))

terça-feira, junho 14, 2011 10:33:00 da tarde  

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