21 março 2011


Simone Weil lamentava que se considerasse a estética como um estudo especial, uma recôndita disciplina universitária, pois «a estética é aquilo que nos torna o espaço e o tempo sensíveis». Sophia de Mello Breyner escreve: «Dizer que a obra de arte, que o poema faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. O poema, a obra de arte faz parte do real». De facto, a beleza não é um atributo, um campo à parte, uma moeda de troca, um consolo, uma técnica, um código simbólico, um artifício, uma especialidade, um suplemento, como se o Ser e a Beleza se pudessem, de alguma maneira, separar. Aquilo que o poema ensina é que a beleza é uma metafísica concreta, um ponto de união entre o invisível e o visível, encarnação do espírito, forma sensível daquilo que é suprassensível. Contra o mundo domesticado dos discursos, o poema restaura a inevitabilidade da experiência.

Procurar uma sílaba: poder-se-ia descrever assim a sua demanda. Enfrentar o máximo no mínimo, no insignificante, no inútil, no ínfimo, no reduzido, no simples fragmento, na pequena dobra, no pormenor. Enfrentar o absoluto no débil e relativo, a imensidão no côvado minúsculo do que diariamente, do que obscuramente divisamos. Isso que nos esforçamos por esquecer, porque a nossa vida estremeceria se em vez dos discursos que nos saem tão fluidos ou temos à mão para explicar tudo, para nos justificar a nós próprios, tivéssemos que passar pelo embaraço de procurar as sílabas, de habitar o silêncio, a infatigável atenção, a longa e áspera noite do não-saber com seus corredores desertos e alagados, como quem espera a salvação.

Se a filologia ensina alguma coisa sobre os processos humanos, podemos então concluir que o poema é, antes de tudo, uma forma de acção. A existência é feita de acções: lavar o rosto, preparar os alimentos, declarar um amor, cumprir um rito de tristeza, levantar a mão num aceno quase impercetível. De todas as ações que compõem a vida, umas são exteriores, outras interiores. Umas são passadas, outras ainda chegarão. Mas nenhuma destas divisões é muito rígida. Porque, simplesmente, há coisas que não passam. E há acontecimentos exteriores que se gravam em nós, nunca saberemos bem de que maneira, como o nosso segredo mais íntimo. O poema é uma acção humana, entre outras. Só isso. Que sabedoria a daqueles poetas chineses para quem a arte dos versos não se sobrepunha à arte de varrer o pátio da sua casa.

O poema só pode ser um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.


José Tolentino Mendonça

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

'Era preciso agradecer às flores

Terem guardado em si,

Límpida e pura,

Aquela promessa antiga

Duma manhã futura.'

Obrigada
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segunda-feira, março 21, 2011 4:08:00 da tarde  

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