24 março 2009




e de repente estás ali outra vez. passeias em passo calmo, pelas ruas da tua infância. por essa vilazinha de província que, nesses anos setenta e oitenta, foi o teu mundo. as tuas coordenadas geográficas, por assim dizer, estão todas ali - mesmo se em ti coexistem dois planos nem sempre pacíficos: uma ligação telúrica às raízes; e, ao mesmo tempo, uma vontade insaciável de mundo. sempre foi assim, apenas constatas o óbvio. de repente, naquele edifício semi-abandonado (só na tua terra os edifícios semi-abandonados são entes absolutamente vivos na paisagem afectiva), olhas de relance o parquezinho onde, há muitos anos, brincavas, enquanto esperavas a catequese. era a rotina de sábado à tarde: a tua mãe deixava-te, à porta, junto ao início do lance de escadas de pedra, brincavas uns minutos, às vezes assustavas-te com alguns meninos com pinta de 'bad boys' (que os há sempre, em todo o lado), iniciavas amizades que deixaste para trás e outras tantas que te acompanham até aos dias de hoje. voltas, num golpe, ao presente. olhas agora essa mapa em ruínas, esse tempo que se foi. e o olhar acompanha agora as palavras do teu pai: vês ali, ali mesmo, mesmo à tua frente, o escorrega e o baloiço que um dia foram teus e das tuas irmãs? antigamente, na casa pequenina, havia um pequeno relvado, irregular. nele, por entre, pinheiros mansos, relva quando calhava, frisos de loureiros, reinavam esses dois irmãos: um baloiço de cor verde e um escorrega de cor vermelha. em ferro forjado, obra de um artífice local, que o teu pai, há 30 anos, teria a tua idade, mandou fazer, para que tu e as tuas irmãs tivessem onde brincar. vivias longe da povoação, um bocadinho isolado, era assim o teu mundo. esses mesmos escorrega e baloiço que foram, quando cresceste, oferecidos para que os netos dos teus vizinhos pudessem também eles brincar. e que, numa daquelas voltas do destino, acabaram ali, no edifício que desde sempre serviu para actividades como a catequese. antigamente, servindo largas dezenas de miúdos, hoje em dia, uma dúzia mal contada. sim, as coisas morrem. sim, a ruína avança. sim, só quem viveu esses dias de glória percebe a dor que pode uma coisa assim representar. por isso e por tantas outras coisas parecidas, não estavas preparado para essa visão. a tua mãe conta-te que, quando passa ali e olha o escorrega e o baloiço, não raro dá por si a chorar. onde estão os meus meninos..?, onde está a minha vida..? dobras-te por dentro e fincas os nervos em posição de defesa. afinal, é suposto seres um homem. e não desatar a chorar, à frente de pai, mãe e irmãs, ali mesmo, às 15h45 de um esplendoroso sábado. arrastas-te como podes, como sabes, como consegues, até a uma conversa de circunstância com uma das catequistas que, no exterior da capela que fica poucos metros abaixo, na mesma rua, tenta manter a ordem naqueles petizes sempre em pulgas para qualquer coisa. salvo pela circunstância. fazes conversa, enquanto respiras aquele ar como nenhum outro, enquanto interiormente te recompôes. sim, eu sei, fomos felizes, mãe. e quem foi feliz nunca mais encontra chave nenhuma para porta nenhuma, não é, mãe? é só angústia e mau-viver, como diria, noutro registo, o josé mário branco. sim, eu sei. mas que querem? alguém trocaria a felicidade aqui e agora por uma neblina existencial qualquer? ninguém, ninguém no seu perfeito juízo. e assim foi. fomos felizes. anos depois, o 'flores de inverno' havia de nascer, fruto de algo circunstancial (amores muito mal resolvidos), mas fruto também de algo estrutural (essa ternura melancólica que te ficou para sempre desse reino maravilhoso que foi a tua tardo-infância e a tua adolescência).

e depois de matutares em tudo isto e de decidires que talvez não o devas passar a escrito, aparece-te uma colega, por sinal neta de um grande e conhecido poeta/romancista do século XX Português, que passa a conversa a mexer numa caneta igualzinha a umas que, há tantos e tantos anos, o teu pai te deu, trazidas do seu local de trabalho. nesses tempos, vê lá tu bem, em que tudo te maravilhava. até umas simples canetas de feltro, brancas, da marca 'paper mate'.. mas isto tu nunca conseguirás explicar muito bem. vale-te a beleza poética de a neta do poeta, sem o saber, ter tido entre mãos a tua infância, inteirinha, durante breves minutos..

que saudades de mim.



8 Comments:

Blogger R. said...

Foi impossível conter as lágrimas.Que grande viagem,Gi,que grande viagem (...)

terça-feira, março 24, 2009 11:17:00 da tarde  
Blogger R. said...

..some things hurt much more than cars and girls...

Prefab Sprout,e um lanchinho logo a seguir :)

terça-feira, março 24, 2009 11:19:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ao contrário, Gi!

Os poucos momentos de felicidade ali vividos, podem multiplicar-se vezes sem conta.

Ao contrário, Gi!

O Antigo Sanatório Infantil, de pequena e inocente semente, transforma-se, diariamente, não só num jardim muito belo, como numa vida cheia de cor.

Este, foi dos bons...
tão bom que, mais que recordar, podemos vivê-lo diariamente.

quarta-feira, março 25, 2009 1:02:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Touching! Really really touching.
...porque ao ler o teu texto se escreve dentro de nós o nosso. E no meu caso já sem pai. E isso doi!
Abs. Luis

quarta-feira, março 25, 2009 10:13:00 da manhã  
Blogger Nuno Guronsan said...

Nada é mais bonito ou doloroso que a realidade, que a nossa própria história interior. Só assim se pode explicar estas tuas palavras, tão belas que quase me deixaram sem respiração e com vontade de te dar um enorme abraço, meu caro.

Brilhante, soberbo pedaço de prosa.
Um forte abraço, amigo Gi.

quarta-feira, março 25, 2009 6:10:00 da tarde  
Blogger carmezim said...

...bendita "caneta"...

quinta-feira, março 26, 2009 10:10:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

que belo pedaço de ti nos deixaste.
ele pulsa, e chega-nos impregnado de vivências e de odores (de tão belo)que nos transportam para então.

obrigada pela partilha.

sexta-feira, março 27, 2009 9:31:00 da manhã  
Blogger Abssinto said...

Caramulo, não conheço, mas aguçaste-me a curiosidade. Foram bons tempos, felizes tempos, e tu lembras-te de tudo isso. Sinceramente a minha infância não me marcou de forma tão indelével, e é com algum desalento que o constato...

Que os baloiços ainda venham a servir muitos petizes.

Abraço!

sexta-feira, março 27, 2009 11:28:00 da manhã  

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