15 setembro 2008

o primeiro dia

faz, daqui a 2 semanas, 30 anos que entrei para os bancos de escola. hoje, ao passear manhã cedo pela cidade, reparei na azáfama própria deste dia. miúdos sonolentos, miúdos sorridentes, miúdos efervescentes, mais as suas mães, pais, avôs, avós, irmãos, irmãs, mochilas e estojos, cadernos e livros.

há 30 anos, entrei para a escola primária do guardão, próximo da hoje vila do caramulo, concelho de tondela, distrito de viseu, região da beira alta. 4 anos de escola primária começaram nesse dia.

nesse mesmo dia, começou também a minha forte experiência inter-classista, ao ser colega de meninos e meninas que andavam quilómetros para ir à escola, vestidos humildemente, habituados a ir à escola e a trabalhar nos campos. lembro-me de histórias, pequenos episódios, nesses dias em que o caminho para a escola era toda uma aventura, por entre árvores frondosas, atravessando uma pequena floresta que me parecia a amazónia, olhando os passaritos. lembro-me do dia em que achei uma boa de futebol (que alegria!), lembro-me de caminhar com o jorge e o zé - irmãos entre si e irmãos da minha infância -, lembro-me daquele colega (o cesário) cuja mãe costurou uma capucha (peça de corte uníca, em tecido grosso, normalmente preta ou castanha, que incorpora capa e capuz, própria para guardar o gado ou fazer a lida dos campos, nesse inverno frio de outros tempos) enquanto ele rezava o terço. lembro-me de se comentar esta história e de os miúdos - nós - olharem para ele e a sua capucha com um respeito indefinível. não sei se é lenda, se é uma história verdadeira, mas sei que, muitos anos depois, aprendi com john ford que 'quando a lenda ultrapassa a realidade, publique-se a lenda'. lembro-me de nessoutro primeiro dia ter ido e regressado são e salvo pela mão da minha querida tia alzira, a terceira avó que tive a sorte de ter tido a meu lado.

[fazes-me falta, tia, sabes? lembro-me de estares doente, de já quase não me reconheceres, lembro-me de ir para o quarto, já homem feito, chorar em pranto, de dar murros na cama, de me revoltar contra a impotência que é ver uma mulher que foi santa em vida apagar-se assim. lembro-me de tudo. do sabor da bolacha maria esmagada com banana, que me davas ao lanche. desses tempos em que a educação era tão diferente destes manuais de regra e esquadro que hoje são o sabor da época.]

nesse dia, ainda não sabia o que viria. esse, agora e sempre, o maior mistério da vida - o nunca sabermos o que vem aí. viria a primária, o ciclo preparatório, em tondela, o liceu, ainda em tondela, com passagem pelo meio por campo de besteiros e regresso a tondela. um percurso 100% em escolas públicas, de que muito me orgulho. mais tarde a católica, em lisboa ('a melhor escola portuguesa, na área' - e lá vim eu, a caminho da minha nova vida, sem o saber). frequência de pós-graduações na faculdade dita clássica de direito de lisboa e, novamente, na universidade católica, desta feita na faculdade de ciências humanas. foram assim, estes trinta anos, no plano académico, desde esse dia em que, pela primeira vez, me sentei numa carteira de escola.

meninos e meninas com que hoje me cruzei: sejam felizes, aproveitem a escolinha, não tenham medo da diferença, habituem-se a respeitar os outros, lutem pelos vossos sonhos, ainda que hoje pequeninos eles crescerão convosco, façam da vossa escola uma coisa bonita, terna, honrada. sejam bons para os meninos e meninas que vos pareçam tristes, sózinhos, diferentes dos outros. pensem que ir à escola é, ainda hoje neste vergonhoso mundo, um privilégio. vocês não podem pensar nisto tudo, porque são pequeninos, mas estas coisinhas vão começar a aparecer, devagarinho, à medida que o tempo for fazendo das suas. uns de vós, mudarão a vossa casa. outros, mudarão a vossa rua. outros ainda, mudarão a vossa cidade. algures, uns quantos mudarão o mundo. quando essa altura chegar, escolham o lado certo, sim? sejam a mudança que constrói, a força suave, a luz que persiste. lembrem-se, então, desse vosso primeiro dia - este dia em que vos escrevo palavras que nunca lerão. e pensem que nesse mesmo dia, daqui a vinte ou trinta anos, muitos outros meninos e meninas estarão a entrar para o seu primeiro dia de escola. se pensarem bem e se olharem bem, mas mesmo bem, para dentro de vós, perceberão que a pergunta-chave é que mundo quererão, nessa altura em que estarão em todo o vosso esplendor de capacidades humanas, deixar-lhes. verão que a resposta nascerá dentro de vós, com uma força vitalista e imparável e transformadora.

porque hoje, hoje é o primeiro dia do resto das vossas vidas.
e das nossas.

3 Comments:

Blogger J. said...

belissimo texto, gi! assim até da vontade de ir à escola... mas nos nessa altura nao sabiamos...sabemo-lo agora que relembramos esses dias com o coraçao apertado de lagrimas de termos sido tão felizes...

bj alpino cheio de sol

segunda-feira, setembro 15, 2008 11:45:00 da manhã  
Blogger Vertigo said...

Olha eu neste teu texto :)

Tão tu,aqui!

segunda-feira, setembro 15, 2008 4:25:00 da tarde  
Blogger CNS said...

Fabuloso texto. Saio emociociada.

Abraço

terça-feira, setembro 16, 2008 12:35:00 da tarde  

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