18 agosto 2008


foto: paulo nozolino


era uma vez um casal algures entre o 'new age' e o 'alternativo', de 'look' quase impecável, não fossem os cabelos algo livres em demasia - muito 'in' noutros preparos; naquele caso, em que rimavam perfeitamente com o 'outfit' de ambos, naturalmente que não pareciam tão politicamente correctos na sua aparente incorrecção. tinham um bebé, que os acompanhava, bem cuidado e merecendo todos os mimos modernos que é suposto devotarmos aos bebés de colo (cadeirinha de última geração incluída). ele parecia branco, ela era seguramente de cor - dúvidas que o olho nú a uma distância considerável nos traz. ele tocava um instrumento musical, ela cantava, acompanhando-o. noutros momentos, dava simplesmente colo ao bebé, embalando-o. as vestes do casal eram garridas, coloridas, num padrão que cheirava a áfrica. lisboa, 22h00.

era uma vez um homem desamparado, de uma fragilidade impressionante. de lado, olhando o seu perfil, através da vidraça do carro, dir-se-ia uma bandeira, oscilando com o vento. cambaleava - juro - ao sabor do vento, com se o corpo se tivesse já desvanecido e apenas uma fínissima filigrana o mantivesse de pé. dirigiu-se-nos nos seguintes termos: 'não terá por acaso o senhor o péssimo hábito de fumar? um cigarrito..'. pensei no dinis machado, esse escritor-fatal. mas é a imagem do 'homem-bandeira' que nunca mais esquecerei. lisboa, 17h00.

era uma vez uma supermercado modesto, como tantos há espalhados pela cidade. empregados modestos vigiam e abastecem modestas prateleiras e esperam nas caixas modestas pelas compras modestas das modestas gentes. duas ou três crianças, negras, de aspecto limpo - impecáveis é palavra mais certeira, mexem-se, aqui e ali, numa dança que só as crianças sabem fazer, quando são ainda suficientemente crianças. falam entre elas e dizem 'a mamã (qualquer coisa)'. a linguagem é sempre sempre um sinal de classe, um poderosíssimo factor de exclusão / inclusão / demarcação de territórios na eterna selva social. escutar, num português perfeito, com a exacta ausência de pronúncia que os nossos ouvidos atribuem a quem fala como nós - erro de simpatia comum -, palavras que associamos a outro tipo de enquadramento social faz-nos parar e pensar. muito e em muitas coisas. lisboa, 11h30.

era uma vez um homem numa motorizada com quatro rodas, denunciando a sua condição especial, a sua 'deficiência física'. vestido a preceito, qual marlon brando num filme dos anos cinquenta, o blusão de couro, os óculos escuros perfeitos, o cabelo num desalinho charmoso, os movimentos másculos e desafiantes de aceleração / desaceleração. 'easy rider' com estilo, mas não 'by the book': não morreu jovem, não deixou um cadáver bonito - e isso é imperdoável para as gentes que passam. lisboa, 22h00.

..

estão em todo o lado, em toda a parte. são os mais perfeitos personagens, uma poderosa máquina de comoção e de humanidade.

quero que eles tenham poderes mágicos, para fintarem destino e probabilidades. lisboa, 17h00.

3 Comments:

Blogger Abssinto said...

Brilhante, meu. Tu também não precisas de máquina fotográfica para nada:D

terça-feira, agosto 19, 2008 3:26:00 da tarde  
Blogger JB said...

Belo texto, Flores de Inverno. Estou em Harare, mas o quotidiano lisboeta passou em frente aos meus olhos. Quem diz que não há encanto no dia-a-dia?

terça-feira, agosto 19, 2008 5:58:00 da tarde  
Blogger carceles said...

bonito texto e bonita fotografia, mas a fotografia nao é de paulo nozolino,é do fotografo frances bernard descamps,

quarta-feira, maio 26, 2010 6:10:00 da tarde  

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