25 junho 2008

63

[para a minha mãe, que faz hoje anos.
que me perdoem todas as outras, mas ela é a mais linda de todas.]


anjos caídos

neste palco de sol,
de repente:
os teus lábios:
anjos caídos mas abençoando

cada curva e tremura
dentro do nervo exacto
da memória

por esses lábios
eu faria tudo:

rasgava-me de sangue
e inocência,
partia com as mãos vitrais
e estrelas,
desintregava o sol

já não anjos caídos
os teus lábios,
mas deuses transportados
pelos meus



o tempo das estrelas

um compasso de espera
tão longo e musical
por estrelas destas
a tocar-me o rosto

e aprender a aceitá-las,
e eu ser um céu imenso
onde elas se pudessem passear,
encontrar uma casa,
um pequeno silêncio
de folhas,
e poeiras, e cometas

na desordem mais cósmica
das coisas,
organizar inteiro:
o coração

porque, a tocar-me o rosto,
o tempo das estrelas
será sempre,
mesmo que tombem astros,
ou outras dimensões se lancem
em vazio,
ou raízes de luz se precipitem
no nada mais atónito

terá valido tudo
a desordem do sol,
terá valido tudo
este lugar incandescente
e azul

porque, a tocar-me o rosto,
agora,
e em silêncio tão terreno:
paraíso de fogo:
estas estrelas

transportadas em luz
nas tuas mãos.



as pequenas gavetas do amor

se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz

devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde

na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores

só não trarei o resto
da ternura em resto esta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo.
quando a quiseres.


ana luísa amaral


[quando falamos da nossa mãe é impossível não falar de comoção, de ternura, de amor incondicional.
por isso, escolhi ana luísa amaral - para mim, a mais perfeita autora portuguesa quando a palavra é.. 'comoção'.
ler esta mulher é morrer em mil estilhaços, e renascer logo a seguir, num milhão de cristais.]

8 Comments:

Anonymous Anónimo said...

63 flores azuis para a tua mãe!

quarta-feira, junho 25, 2008 11:34:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

obrigado, querida anónima (é um palpite..).

flores para ti,

gi.

quarta-feira, junho 25, 2008 12:36:00 da tarde  
Blogger Abssinto said...

Ora muitos parabéns à madame! Belíssima escolha (principalmente devido ao último poema).

quarta-feira, junho 25, 2008 9:29:00 da tarde  
Blogger Vertigo said...

Este comentário foi removido pelo autor.

quarta-feira, junho 25, 2008 10:54:00 da tarde  
Blogger Vertigo said...

Daqui a uma hora e cinco minutos,faz aninhos uma outra mãe.a mais linda do mundo :))

Beijos e abraços,às duas*

quarta-feira, junho 25, 2008 10:56:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

obrigado, em meu nome e em nome da excelsa madame, pelos teus 'muitos parabéns'.

'grato-sou-te'

gi.

quinta-feira, junho 26, 2008 10:02:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

sim, sim!
obrigado e muitos muitos parabéns a 'essa outra mãe mais linda do mundo'.
no fundo, perdidos no meio de outros tipos de amor, por vezes esquecemos o exemplo maior que é o amor maternal. habituados que estamos a contar com ele, não percebemos ou não retribuímos na justa medida. mas como seria possível retribuir na justa medida se nós, por enquanto só filhos, nem sequer entendemos do que falamos quando falamos desse amor maior..?

beijinhos à tua mamã, vertigo.
saudades vossas, muitas.

gi.

quinta-feira, junho 26, 2008 10:05:00 da manhã  
Blogger Vertigo said...

és de sentimentos nobres,que eu bem sei ;)

saudades vossas,também!

sexta-feira, junho 27, 2008 1:13:00 da manhã  

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