03 dezembro 2007


imagem: wim wenders, 'as asas do desejo'


o semblante fechado e envelhecido era mais carapaça do que identidade, via-se a léguas, se assim se quisesse ver.
na garagem onde assentou arraiais, o homem tinha um pequeno quartinho, misto escritório, misto dormitório, misto 'posto de recepção', de onde se afastava unicamente para dar instruções aos carros que, descompassadamente, apareciam vindos daquela rua secundária. os donos dos carros, gente bem na vida (não necessariamente gente bem com a vida, quanto mais gente de bem), olhava-o com aquela displicente superioridade que certos veículos e respectiva cavalagem atribuem aos seus detentores - espécie de propriedade transitiva dos bens materiais (outros usam a palavra 'estatuto').
levantou-se, como tantas vezes, e começou, em registo minimal, a dar indicações, por forma a que o automóvel desse com a justa entrada, sem danificar a sua preciosa pintura metalizada. lá indicou, sem um sorriso, o lugar que achava adequado, de modo a permitir a fácil manobra das outras viaturas. terminada a tarefa, voltou para o seu lugar, entregando antes um papelinho (para posterior validação no restaurante a quem aquela garagem dava apoio).
virou costas, sem um sorriso, e os seus cabelos brancos compostamente desalinhados indicaram-lhe o caminho de volta ao aquário que lhe servia de abrigo, escritório, posto de observação (outros usam a palavra 'casa').
os utilizadores daquele automóvel, uma meia-dúzia, quase nem repararam nele, até que um deles, por certo menos cumpridor dos rigores do protocolo social, se virou para o aquário e reparou na presença de um gato. um gato a espreguiçar-se dá sempre um sinal de aristocracia a quem se encontra à sua volta - e as pessoas gostam de estar perto de aristocratas.
reparando em quem afinal reparava, o velho homem dos cabelos brancos (podia ter sido um pianista de renome, com a sua figura esguia e estranhamente altiva) baixou-se e, de um lugar baixo situado junto aos seus pés (adivinhamos, porque também poderia ter sido um acto de magia), retirou dois gatinhos ainda bebés.
pegando nos gatinhos com o carinho que dedicamos às coisas poucas que salvaríamos de uma vida, fazia-lhes festas, enquanto o gato maiorzinho (de repente, para todos tornava-se evidente que era uma gata-mãe daquelas duas crias) continuava o seu show digno de uma 'catwalk' parisiense.
as seis pessoas haviam parado o seu passo esfomeado e rodeavam agora aquele improvável aquário, dentro da garagem improvável, algures a meio da rua improvável. reparavam naquele jogo de abraços entre os gatinhos e o velho homem, só possível em que reúne em si as potencialidades do desejo puro, a sensibilidade da dádiva desinteressada e o amor incondicional por qualquer vestígio de ternura. gatinhos e homem como que se fundiam, num espectáculo que mereceria decerto ser grafado com maiúsculas trabalhadas (como antigamente se fazia).
o rapaz ficou para trás e olhava para os cinco companheiros que olhavam o homem dos cabelos brancos cada vez mais impecavelmente desalinhados. e olhava os gatinhos. e olhava o homem. reparou então em duas coisas simples: o rosto, há minutos frio e fechado, ganhara vida, expressividade, doçura; os olhos, até há pouco baços e gelados, eram agora acrobatas translúcidos, numa dança de luz. ia jurar que eram olhos que iluminavam, mas lembrou-se daquela gente que por vezes lhe diz: 'rapaz, de um berlinde fazes um planeta - isso é lá coisa que se apresente como cartão de visita em pleno século 'vintium'??'.
durantes os segundos que se seguiram, não se ouvia um som, um ruído, como se o quadro ficasse para sempre captado num 'slow-motion', com a vida objectiva suspendida. e toda a gente sabe que, em slow motion, não há som. quer dizer, pode haver, mas só em pós-produção. e, nesse dia, os anjos de lisboa, à maneira dos seus irmãos que cruzam os céus de berlim, não tinham tido ainda tempo (era, como dizer, humanamente impossível, mesmo para um anjo) para a dita pós-produção..
o rapaz respirou fundo, imobilizado em si mesmo. pelo canto do olho, reparou num pequeno televisor, companhia certa em noites frias e inóspitas do velho homem dos gatinhos. pareceu-lhe que do televisor não vinha som algum (o que batia certo com a impressão de 'slow motion' que havia captado precisamente há uns segundos atrás), apenas uns quantos frames, lentamente lânguidos e com a patine própria do preto e branco mais clássico. pareceu-lhe ver o sorriso de uma actriz de felinni, sorrindo-lhe.
ainda hoje é capaz de jurar que aquele filme, antigo por certo, tinha sido feito em plena 'cidade do cinema', para que, décadas depois, servisse de caução afectiva àquele caudal felino - o homem e os seus gatos -, àquele rio improvável e imparável que o inundou.
quando chegou a casa, era dos olhos iluminados que melhor se lembrava. e dos gatos. e do porte daquele pianista por acontecer. e do sorriso daquela julieta italiana, na televisão sem som. enquanto se despia da pele suavemente molhada, pensava de si para si, em como, por vezes, basta o fósforo certo para iluminar uma vida (outros usam a palavra 'coração').

nunca mais ouviu falar do homem dos cabelos brancos educamente desgrenhados. mas recolheu na rua dois gatinhos, que apareceram à sua porta.
o seu cabelo, com o passar dos anos, envelheceu e ganhou tons brancos. restos do poeta por acontecer que um dia houve em si, deixou-o o crescer, ganhando aquele desalinho elegante dos artistas clássicos (que secretamente admirava em menino).
os anos passavam e as pessoas admiravam-se por que razão andava aquele homem, ainda conservando uma pose elegante - e, diziam alguns, altiva -, sempre acompanhado por dois gatinhos pequeninos que parecia terem-se simplesmente recusado a crescer ('como se isso fosse possível', dizia o chefe da repartição de finanças local).

do alto do prédio que o viu passar de menino a rapaz, de rapaz a homenzinho, de homenzinho a adulto e de adulto a homem já com algum do peso próprio de certas idades, gabriel pensava para consigo que tinha valido apena aprender a falar aquela língua meia eslava, meia latina, meia grave. afinal, ser anjo em terra alheia tem muito que se lhe diga.

5 Comments:

Blogger Nuno Guronsan said...

De um fôlego.

Foi assim que li as tuas palavras e, por momentos, pareceu-me ouvir a tua voz, tal como a escuto na rádio zero.

Que prazer puder ler isto.

Um enorme abraço.

segunda-feira, dezembro 03, 2007 9:49:00 da tarde  
Blogger un dress said...

que lindo! que lindo!


e é só...............é tudo.

terça-feira, dezembro 04, 2007 12:42:00 da manhã  
Blogger cristal said...

a imagem que me leva até um dos meus filmes favoritos de sempre numa conto teu que guardo como um conto de natal :*

terça-feira, dezembro 04, 2007 10:55:00 da manhã  
Blogger Abssinto said...

Porra, pá

isto ao som de Radiohead foi cá uma coisa...

terça-feira, dezembro 04, 2007 6:03:00 da tarde  
Blogger Vertigo said...

O que eu gostei de ler isto,gi (...)

quarta-feira, dezembro 05, 2007 4:25:00 da tarde  

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