25 dezembro 2007

enquanto tomava o duche de natal, as lágrimas misturavam-se com o chuva de água tépida, na já habitual celebração em torno das figuras extintas.
o natal tornara-se, com o passar dos anos, um conceito complexo, mistura descontrolada de sentimentos doces com recortes pontiagudos de perfis dissolventes. a valsa do adeus tem inúmeras materializações - o dia de natal é apenas uma entre as demais, ainda que com o pequeno senão de ser particularmente 'detached' dos bons usos e melhores costumes. a contra-vapor, por assim dizer - parecia-lhe a expressão certa. mas expressões certas tinha ele centenas, espalhadas pela algibeiras, escondidas nos forros, atrás da orelha, por entre os dedos.
as lágrimas podiam sempre ser terapêuticas - ler muito tem destas vantagens, há sempre uma aforismo 'new age', uma interpretação cosmocómica à mão de semear -, lera algures e tentava agora fazer bom uso dessa mezinha. sempre era melhor que nada. e, como ele bem sabia, tudo era sempre melhor que nada, esse nada de que fugia a sete pés. distraia a mente com estes artifícios - uma vez jongleur do coração, para sempre trapezista dos sentimentos. pouco lhe importava que fossem próprios, não tinha argúcia para tanto, nem era especialmente hábil no manejar escorreito das portáteis e sanguíneas armas de manipulação à distância. sabia de palavras, não sabia de mais nada. já era alguma coisa. afinal sempre era mais alguma coisa que nada - esse nítido nada de que fugia sete vezes sete pés.
o problema destas artes menores é que nunca são potentes o suficiente para iludirem a realidade. as artes maiores fazem as vezes; as artes menores nem isso. é como ser polícia às portas de lisboa e usar à lapela um aviso dizendo 'a pistola deste cavalheiro é de pólvora seca'. ineficaz, no menos ácido; ridículo, na realidade.
as lágrimas - que quase havia esquecido - batiam contra a face e rolavam corpo abaixo, na sua inexorável caminhada para o ralo da banheira. nem isso era possível salvar, nenhum museu sairia dali. um museu sem espólio é uma imagem triste, deprimente ('um dia houve coisas aqui, lamentamos apenas ter para mostrar paredes brancas'). riu-se para dentro. mas o riso, essa sim uma arte maior, não deixa de ser o que é - umas tréguas que o deserto concede, um adiar. nada mais. é claro que umas tréguas sempre é melhor que nada. esse nada de que ele fugia a sete vezes sete vezes sete pés.
lembrava-se ainda dos momentos na sua vida em que as lágrimas brotaram de dentro dele com aquela força improvável e sempre supreendente que só a alegria inesperada tem. lembrava-se de episódios familiares, de momentos de amizade exponenciada em 'maximum overcharge', mas do que se lembrava mais intensamente era das mulheres a quem, por momentos, ousara oferecer as suas próprias lágrimas. há quem preferira reeceber, há quem prefira a materialidade - ele não, sempre optara por dar e dar a coisa, julgava ele, mais importante.. dar-se. mas isso era nos tempos em que ainda haveria finais felizes, animais nas quintas dos livros infantis, manhãs de sábado com alegria torrencial, céus de onde caíam catadupas de rebuçados com sabores vindos de séculos passados. agora, e ele sabia-o bem, já não era mais possível. quer dizer, ainda era um bocadinho possível, mas cada vez menos. alegrava-o o facto de que mesmo este menos era mais um bocadinho que nada. esse nada de que ele fugia..
lembrava-se dos vestidinhos bordados na pele das mulheres que amara. de como lhes admirava os contornos, de como as envolvia nos seus esquissos nunca revelados.. vestidos de uma peça única, de linhas direitas. impecáveis saias plissadas, justas e a meia altura, camiseiros de algodão imaculadamente brancos, casacos compridos com cortes anacrónicos, vindos dos confins dos tempos, jeans luminosamente justos. lembrava-se de cortar o tecido (as suas lágrimas) e de dizer de si para si que agora sim, a obra-prima estava ali. que o sentido tardara mas chegara. que o esteta que havia nele encontrara enfim a matéria-prima radicalmente certa.
ah, alquimista de feira, como são volúveis os sonhos.
ah, mágico sem magia, como são terríveis os sonhos forjados na bigorna já fria.
ah, poeta sem dom, como são escuras as palavras sem luz.
enquanto repetia a lenga-lenga de ocasião, parecia-lhe agora captar cristalinamente o pling pling das lágrimas por entre a torrente sonora da água do chuveiro. como se tivesse a capacidade nos seus ouvidos de separar os sons em pistas múltiplas, isolando as diversas camadas. uma mesa de mistura portátil, ao pescoço. ideia estranha esta, diria ainda de si para si, mas não suficientemente estranha para atropelar o pling pling. as coisas têm a sua ordem. e as lágrimas têm a sua prioridade.
fechou a água do banho.
vestiu os jeans, a camisa de seda castanha escura, o pullover castanho, dois tons acima, deu a volta certa ao cachecol azul-escuro. calçou os sapatos desportivos, com relativa lânguidez.
arrumou meticulosamente o quarto, como sempre fazia.
desceu.
senteu-se à mesa de família.
e disse:
- feliz natal para todos.
sorria por fora, mas se houvesse quem adivinhasse a largueza do mar que o inudava por dentro, iria jurar que era humanamente impossível. que nem toda a água de todas as serras das redondezas chegariam para completar aquela espécie de depósito interior em permanente convulsão.
repetiu:
- feliz natal.
sorriu outra vez.
pensou: ou escrevo isto ou rebento.
(e rebentou).
(ou então escreveu).
(ou então nada, esse nada de que fugia a sete vezes sete vezes sete vezes sete..).

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

bem aventurados os que choram, pois por Ele serão consolados.

ab

terça-feira, dezembro 25, 2007 9:10:00 da tarde  
Blogger Vertigo said...

Sabes gi,um grande beijo para ti**

terça-feira, dezembro 25, 2007 9:26:00 da tarde  
Blogger un dress said...

apetece-me sentar. aqui...:)


belO..........como belO.

... o que dizes.

o que não dizes.

quarta-feira, dezembro 26, 2007 7:31:00 da tarde  

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