23 abril 2007

omertà

anda por aí um livrito - com 61 páginas úteis - a fazer das suas. já tropecei nele mais do que uma vez, enquanto flanava por alguns dos jardins que frequento. encontrei citações deste livrito por aí, em jeito de flores de primavera. ainda não percebi se são, à maneira de baudelaire, flores do mal. mas sei que são flores 'exquisite', flores carnívoras - se, por acaso, por carne tomarmos também a alma em que habitamos (ou que em nós habita). que nenhum homem escolhe o inverno ou a primavera; são antes as estações que nos escolhem a nós.

este livrito, dizia, anda por aí e é um perigo público. pode fazer ver - o que é, consabidamente, um tenebrosa forma de subversão da ordem e da moral. este livrito, contava-vos, é de um rapaz com menos de 30 anos - mas daqueles que ainda não desistiram da sua geração, como canta o j.p.simões - e chama-se, singelamente, 'omertà'.

é um livro de poesia ? é um livro de ideias ? é um ensaio poético ? é tudo isto e nada disto. e mais do que isto.

deixo o trabalho sério para os críticos literários. lembro-me do changuito (da 'casa da mariquinhas') me ter dito muito bem do autor. fixemos-lhe o nome: vasco gato.

diz coisas assim:

ofereço-te a boca da minha juventude.

estão aqui 37 graus. é um corpo. e ninguém se aproxima senão para recuar. devorar. ou ficar.

sei como os eléctricos da noite parados me procuram. sei que me rege uma flor insensata.

esta praça é o meu amor em estado de sítio.

abres a boca para viver desesperadamente. e zero. dez comboios em partida simultânea. o som desse êxodo.

damos vertigens. se entramos uns nos outros, damos vertigens.

não devemos ser fortes quando está em causa a transfiguração. há uma espécie de força que é uma espécie de fraqueza, e uma espécie de fraqueza que é uma espécie de força. como distinguir? se no pescoço se nota o vinco da corda é porque não estamos a viver.

o teu corpo transpira o meu ópio. não te afastes.

no deserto sonha-se com os próprios dedos.

a poesia é o único tóxico que negoceia vida.

não se sai do abismo; aprende-se a sua linguagem.

(..) o amor está sujeito ao princípio da incerteza de heisenberg: quanto mais sabemos da sua velocidade, menos sabemos da sua posição, e vice-versa. o amor é, por isso, todas as graduações de velocidade e posição.

esta noite adormeci agarrado aos meus gritos.

tenho uma praça fora do sítio. tenho uma árvore fora do sítio. tenho um homem, dentro de mim, fora do sítio.



vasco gato, 'omertà', edições quasi, 2007

3 Comments:

Blogger Abssinto said...

O Vasco Gato é um poeta "fora do sítio", tem um certo...veneno, o jogo das suas palavras. Obrigado!

segunda-feira, abril 23, 2007 10:17:00 da tarde  
Blogger Letras de Babel said...

nunca se viveu o suficiente. nunca se leu o suficiente.
é o que me ocorre ao constactar que não conhecia este livro.

diz coisas assim...
onde também estamos.

(e por tal, talvez as cite no meu sítio...)

_____________

bjs

quinta-feira, abril 26, 2007 2:48:00 da manhã  
Blogger menina limão said...

estive ontem com o livro nas mãos, ando a namorá-lo. o vasco gato merece lugares na minha estante.

sábado, maio 05, 2007 12:00:00 da manhã  

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