10 novembro 2006

caleidoscópio: B

havia semanas que ele não respondia às tentativas de contacto dela. o mail permanecia mudo, como que um museu de homenagem a esse antigamente; as sms esbarravam num muro de silêncio; nenhum registo surtia efeito. até esse dia.
esse dia meridiano viu uma sua última mensagem (ou pelo menos o que ela pensava ser a sua última mensagem) devolvida com meia-dúzia de caracteres adicionados. uma resposta simples e minimal não deixa ser uma resposta - lembra-se de ter pensado.
horas depois, por entre os jardins de um subúrbio de ocasião, trocaram as primeiras palavras em muitas semanas.
não demoram a chegar ao que os trouxera ali - o desencontro activamente promovido por uma das partes.
a medo, mas com uma certa dureza distante, ele confessou que tinha lido um artigo numa revista qualquer que contava como, nas grandes urbes, há pessoas - mulheres, no caso - que se dedicam a uma espécie de caça: predadoras em saltos altos e de tailleur imaculado que, parecendo procurar consolo, procuram outra coisa, junto de parceiros de ocasião, num carrossel frenético de estímulos, sensações, momentos. uma euforia perpétua e sensual, o eterno devir possível e acessível.
ele contou-lhe como o artigo o fez enrolar-se por dentro, afinal tudo (mas tudo!) encaixava com o perfil dela. uma sms recebida por engano há tempos e em tudo igual às que ela lhe costumava enviar, um comentário dúbio de um porteiro de hotel há ainda mais tempo, um conjunto de coisas que, vistas agora e em conjunto, pareciam fazer sentido. todo o sentido. o único sentido. daí a ter cortado o contacto foi um passo, uma reacção quase instintiva, misto de desconsolo, raiva, desilusão, renúncia. afinal, ela não valia a pena. afinal, ninguém vale a pena.
ela escutou-o atentamente. e falou. de sopetão, sem interrupção, contou-lhe como certos factos (como ele os apresentava) nem sequer eram factos ou, noutros casos, como as presumidas evidências não passavam de actos banais que apenas confirmavam o que ele já sabia dela (mas que subtilmente tinha optado por esquecer). falou-lhe de uma vida complexa e inverosímil, de como, pelo facto de existirem 'verdadeiros-homens-desviantes' (não ela!, não ele!) com direito a perfil psicológico e comportamental numa revista de ocasião, ela havia desenvolvido dentro dela uma espécie de zona de silêncio, como se os mundos paralelos em que vivia nunca se tocassem totalmente. um puzzle com espaços em branco por entre as peças, revelando o fundo, lá atrás - e portanto o artifício relativo de todos os puzzles, meras construções e não as ansiadas 'revelações'. isto explicava certas lacunas de informação que ele dizia ter sobre ela, e que ela sabia serem verdade.
ela falou com aquela ânsia urgente que dá autenticidade; ele ouviu, em silêncio primeiro, anuindo levemente depois, sorrindo finalmente.
o café foi tomado num ambiente já mais distendido. como se uma nuvem cinzenta se tivesse desvanecido, mesmo à frente deles, deixando apenas a memória.
o café, normalmente amargo, nesse dia soube-lhes especialmente bem - comentaram o facto um com o outro, nessa espécie de cumplicidade poética que interrompe qualquer banalidade.
ele recuperava o ânimo a olhos vistos - olhava-a agora como 'rapariga de novela' - a mocinha -, como por vezes lhe chamava.

foram felizes. tanto quanto os deixaram ser felizes. foram felizes, à sua maneira.

muitos anos depois, ela encontrou, por entre arrumações domésticas, uma velha revista, amarelada e já ligeiramente enrugada. curiosa, como sempre desde menina, os seus olhos foram ao encontro de um post-it deixado muitos anos atrás. ao fundo da página, o artigo remetia para o final da revista, ao jeito de algumas publicações do séc. XX, no tempo em que não havia ainda edição electrónica. o post-it dizia 'ler o final do artigo!!', numa letra agitada e imperativa (e masculina). com uma ansiedade que desconhecia, procurou as últimas páginas, dedos deslizando papel fora. aí chegada, leu a conclusão do artigo escrito muitos anos antes:

'(..) com mulheres com este perfil, caçadoras modernas equipadas com impecáveis maquilhagens, roupas de griffe e um sem acabar de utensílios que vincam simbolicamente a sua autonomia perante as multidões urbanas do novo século, todo o cuidado é pouco. mestres na caça, são, por um fenómeno que a psicologia ainda não decifrou, mestres ainda mais exímias na arte da negação, usando de estratégias de contra-informação com um grau de sofisticação absolutamente invulgar (..)'

final 1

já não leu o resto. pensou apenas que acaso ele tivesse lido, nos dias que antecederam aquele meridiano dia há tantos anos atrás, o artigo até ao fim, talvez a resposta à sua última sms (simples e minimal, mas resposta) não tivesse acontecido.
e com esse dia-resposta, ter-se-ia desvanecido também toda uma vida. de felicidade, à maneira deles.
lembrou-se dele e da sua tocante fragilidade com uma urgência intolerável. as saudades prostraram-na de tal forma, que as lágrimas misturaram-se com o velho e já não tão amarelo post-it, numa formidável dança de letras. letras fundidas, dizendo agora: 'é favor viver até ao fim!'.

final 2

já não leu o resto. pensou apenas que acaso ele tivesse lido, nos dias que antecederam aquele meridiano dia há tantos anos atrás, o artigo até ao fim, talvez a resposta à sua última sms (simples e minimal, mas resposta) não tivesse acontecido.
talvez tivesse, de certa forma, 'sido melhor', uma espécie de justiça divina por antecipação, que teria evitado uma vida feliz (à maneira deles, mas feliz) que ela afinal não havia merecido. a resposta, tão convincente, tão autêntica, tão intensa, que havia dado nesse dia tinha sido apenas mais uma das suas muitas fugas em frente - em que ela era - qual a palavra certa? - exímia, isso mesmo, exímia. exímia e sofisticada.
mas ele não leu, nunca chegou a ler. mas chegou a viver, e viveu até ao fim.

4 Comments:

Blogger Nuno Guronsan said...

Não sei muito bem o que escrever aqui como comentário. Mas como tributo às tuas palavras, apenas gostava de mencionar que não é fácil...

Abraço.

sexta-feira, novembro 10, 2006 8:02:00 da tarde  
Blogger Gi said...

..não é fácil, nunca é fácil. 'ser fácil' é, afinal, o mais difícil.

segunda-feira, novembro 13, 2006 10:30:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

atrevo-me a dizer que nada é facil! tudo é difícil! entendido como difícil está, no entanto, uma maior ou menor sucessão de pequenas e simples coisas, fáceis.
é uma questão de tempo...
até conseguirmos dizer a nós próprios: não é fácil, mas é possível.
possível como um livro de contos!
fácil como um programa de rádio!
aquele

segunda-feira, novembro 13, 2006 12:25:00 da tarde  
Blogger Gi said...

aquele.
got the point - very well said.

segunda-feira, novembro 13, 2006 12:30:00 da tarde  

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